Brucelose bovina

11/08/20 | Ipeve

Aspectos gerais

A brucelose é uma doença infectocontagiosa, zoonótica, causada por bactérias do gêneo Brucella. Várias espécies de brucelose afetam os animais domésticos, como a B. suis em suínos, a B. canis em cães, a B. ovis em ovinos, B. melitensis em caprinos e a B. abortus em bovinos, caprinos, ovinos e equinos, sendo a B. melitensis e a B. abortus as espécies que mais estão associadas a infecções em humanos. A brucelose humana geralmente ocorre pelo contato direto com material biológico infectado tanto nas propriedades rurais, quanto em abatedouros ou laboratórios de diagnóstico. Além disso, existe ainda a possibilidade de transmissão da doença por meio da ingestão de produtos lácteos não-pasteurizados.

A brucelose já é considerada uma doença erradicada em vários países, mas nos países em desenvolvimento ela ainda é considerada relevante, principalmente nos bovinos. No Brasil a brucelose é considerada uma doença endêmica e relativamente frequente em rebanhos bovinos. Devido ao grande impacto que a doença pode causar para a pecuária e também devido ao seu caráter zoonótico, desde 2001 o Brasil conta com um programa oficial de controle e erradicação dessa doença que é baseado na vacinação compulsória de fêmeas, eliminação de animais reagentes em exames específicos e na certificação voluntária de propriedade livre da doença.

Sinais clínicos

Em linhas gerais, a brucelose é caracterizada por infecções uterinas com aborto no terço final da gestação (associados ou não a danos fetais) e a infecções testiculares (orquite e epididimite) e, mais ramamente, artrite. A infecção ocorre por meio do contato direto de mucosas com secreções uterinas contaminadas, durante a ordenha, via ingestão de leite ou via transplacentária, sendo possível a ocorrência de transmissão entre espécies diferentes, especialmente entre bovinos e equinos que compartilham instalações e entre bovinos e cães que tiverem contato com restos placentários.

Diagnóstico

O diagnóstico da brucelose é feito através da combinação do histórico do animal e da propriedade e de exames complementares laboratoriais. A detecção do agente pode ser feita por isolamento bacteriano, por colorações especiais e por técnicas moleculares a partir de amostras de conteúdo estomacal do feto, placenta, secreções uterinas, leite e sêmen.  Porém, por se tratar de um agente infeccioso de risco biológico nível 3,, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, a manipulação de material potencialmente contaminado por Brucella somente pode ser realizada em ambiente laboratorial com barreiras de biossegurança especiais. A exposição do rebanho ao agente, por sua vez, é detectada por meio de testes sorológicos, como o teste do antígeno acidificado tamponado (AAT) e a prova lenta em tubos, seguida pelo teste do 2-mercaptoetanol. O teste do anel em leite pode ser feito em um pool de amostras de leite bovino para monitoramento da presença de anticorpos anti-Brucella e, assim, detectar precocemente a presença de animais positivos na propriedade. Outros métodos sorológicos tem sido utilizados em programas internacionais, como o teste de rosa de bengala, fixação pelo complemento, técnicas de Elisa, dentre outros.  Além de todas essas possibilidades, a análise anatomopatológica dos tecidos fetais e achados como pneumonia, edema de subcutâneo e leptomeningite tem valor diagnóstico importante.

Tratamento e controle

Como a Brucella sp. é um microrganismo intracelular facultativo de macrófagos (ou seja, ela pode sobreviver em dentro dessas células do sistema imune do hospedeiro), a ação de antimicrobianos é comprometida. Sendo assim, o teste laboratorial associado a segregação e remoção dos animais positivos do rebanho é a metodologia utilizada para erradicação da doença.

De acordo com o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Bovina criado pelo Ministério  da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) a prevenção contra a brucelose bovina se dá pela vacinação obrigatória de fêmeas entre 3 e 8 meses com a cepa atenuada B-19 ou a cepa R-51 da B. abortus. A vacinação promove resposta imune, principalmente do tipo celular, que vai proteger as fêmeas vacinadas contras as cepas de campo durante a fase reprodutiva. Com o passar dos anos o nível de anticorpos cai, e, por isso, essas fêmeas não serão erroneamente diagnosticadas como infectadas quando adultas. A vacinação de fêmeas adultas deve ser evitada, justamente para evitar o confundimento entre a resposta humoral vacinal e a resposta humoral resultante de infecção ativa, mas pode ser realizada em casos de surtos graves.

A certificação da propriedade como livre da brucelose é um procedimento não-obrigatório que consiste em exames periódicos das fêmeas para a detecção de anticorpos anti-B. abortus através de exames de triagem, seguidos de exames confirmatórios e eliminação de animais positivos. O exame de triagem (teste do antígeno acidificado tamponado – AAT) pode também ser realizado na própria propriedade por veterinários habilitados pelo MAPA enquanto os exames confirmatórios (prova lenta em tubos - PLT, seguida pelo teste do 2-mercaptoetanol - 2ME) somente podem ser realizados  em laboratórios oficiais ou credenciados, certificados pelo NIT/DICLA-INMETRO.

 

Referências

LAGE, Andrey P. et al. Programa nacional de controle e erradicação da brucelose e da tuberculose animal (PNCEBT). Brasília: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2006.

OIE, Terrestrial Animal Health Code Brucellosis. Brucellosis (Brucella abortus, B. melitensis, and B. suis), 2018. Disponível em: https://www.oie.int/fileadmin/Home/eng/Health_standards/tahm/3.01.04_BRUCELLOSIS.pdf

POESTER, F. P. et al. Pathogenesis and pathobiology of brucellosis in livestock. Rev Sci Tech, v. 32, n. 1, p. 105-15, 2013.

RADOSTITS, Otto M. et al. Clínica Veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e eqüinos. Guanabara Koogan, 2002.

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